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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Uma questão de ponto de vista! (Renata Lima)


No livro "Vulgo Grace" da autora Margaret Atwood, publicado no Brasil pela Editora Rocco, somos levados à Toronto do século XIX e conhecemos Grace Marks, uma jovem que enfrenta muitas perdas e precisa se adaptar à vida sem a mãe (morta durante uma travessia de barco) e sem o pai (viciado que só pensa em dinheiro e levou toda a família à falência, obrigando a fuga de todos para um novo continente).

Nossa Avaliação - 90
Separada dos irmãos, Grace precisa trabalhar para enviar dinheiro para o pai e consegue um emprego de criada em casas de família e é em uma dessas casas que conhece Mary, outra criada, com quem faz amizade.

As duas eram inseparáveis, mas por um acaso do destino,  a tão esperta Mary cai na lábia de um conquistador barato, cede às tentações e fica grávida, morrendo logo em seguida, em decorrência de um aborto mal feito.

Pressionada pelos patrões para contar a verdade do que houve com Mary e com medo do que pode acontecer a ela se ficar ali, Grace deixa a casa de família rumo ao interior levada por Nancy, outra moça com quem já trabalhara e que agora é governanta.

Nessa casa, Grace descobre, através do capataz, que Nancy é amante do patrão. Se sentindo injustiçado e prejudicado pela mulher, o capataz começa a tramar o assassinato da governanta, mas algo dá errado e ele mata não somente a mulher, mas também seu senhor, chamado Kimmet.

Presa como cúmplice, Grace tem sua pena de morte comutada em prisão perpétua e da penitenciária é levada para o asilo na ala de criminosos violentos. De volta à penitenciária, Grace cai nas graças do reverendo, do diretor e da esposa do diretor, que acreditam em sua inocência e chamam um médico, o doutor Jordan, para avaliar a sanidade mental da jovem.

Série
O fato do livro ser inspirado num caso real arrepia. A história é muito bem contada e a gente fica o tempo todo se questionando o que se passa realmente na cabeça de Grace. Será ela uma jovem injustiçada ou uma assassina fria e calculista que matou sem motivo aparente, embora vivesse sendo maltratada pela governanta?

Os personagens são complexos e multifacetados, o que torna o livro bem interessante. É como se todos tivessem o bem e o mal dentro de si.

Dos três livros que li até agora da autora Margaret Atwood, gostei mais de "O Conto da Aia" (menos do epílogo), mas esse também é muito bom e recomendo para quem gosta de suspense!

É legal lembrar que a Netflix fez uma série baseada no livro, que também é muito boa, chamada Alias Grace (o título do livro em inglês).

Vale muito a pena conferir!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O livro que promete, mas não cumpre! (Renata Lima)


Antes de começar a resenha do livro "Coração Envenenado" vou logo dizendo que não gostei! Achei bobo, sem sentido e de uma propaganda muito enganosa que promete um suspense sobrenatural e no fim dá uma explicação bem meia-bomba pra tudo que aconteceu deixando de lado um monte de elementos adicionados anteriormente. Muito decepcionante!

Nossa Avaliação - 3.0
O livro é narrado e conta a história de Katy River, uma jovem universitária que mora com a mãe em uma cidadezinha do Reino Unido. O interessante aqui é que a mãe de Katy tem síndrome do pânico e é um tanto bipolar. Ela não sai de casa e fica no pé de Katy o tempo todo. Já Katy é uma jovem bem comum, com preocupações comuns da idade.

Um belo dia, porém, Katy está no ônibus e sente que está sendo observada. Ela se depara então com uma jovem de olhos muito verdes que a encara e é a partir daí que as coisas estranhas começam a acontecer. Onde Katy está, a garota se materializa. Na feira, na escola, na casa de seu namorado e a cada aparição a jovem começa a parecer mais e mais com a própria Katy, usando roupas bem parecidas com as dela -que são exclusivas porque ela mesma as borda - e inclusive conquistando seus amigos e namorado!

Curiosa, Katy passa a querer descobrir quem Geneviere é de verdade porque ela sente que há algo de obscuro por traz da história da jovem órfã. Ao investigar as origens de Geneviere com seu melhor amigo e vizinho, Katy se depara com pessoas que tremem ao simplesmente ouvir o nome da jovem. Quando finalmente decide confrontar Geneviere e perguntar o que ela quer e quem ela é, Katy escuta a horripilante frase: "Eu sou o pior pesadelo da sua vida!"

Com uma trama dessas, me pergunto onde foi que a autora se perdeu. Todo esse mistério, esse arrepio que a gente sente na espinha toda vez que Geneviere aparece vai sendo aos poucos jogado no lixo. Há vários furos na história, várias pistas que não levam a lugar algum e só servem para instigar nossa curiosidade. No fim, nada disso foi levado em consideração e essas pistas eram uma estrada para lugar nenhum! A proposta do livro simplesmente não faz sentido. Era como se alguém escrevesse um livro policial que no fim vira um livro de comédia! Literalmente, me senti enganada!

A nota, que fique bem claro, é porque o livro poderia ter sido muito melhor, muito mais interessante, se a autora não tivesse se perdido completamente nas explicações banais e simplórias esquecendo completamente da intrincada história que ela escreveu até 75% do livro.

Não recomendo para ninguém!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quando você é afligido pela doença que precisa combater! (Renata Lima)



Voltamos hoje com mais um livro policial do selo Vestígio, anteriormente Vertigo, da editora Autêntica. Dessa vez, o livro é "Na Mente, o Veneno" da autora francesa Andrea H. Japp, pseudônimo de Lionelle Nugon-Baudon, que criou uma série baseada na personagem Diane Silver, sendo esse o primeiro livro!

Nossa Avaliação - 7.5
Como sou fã da série Criminal Minds, esse livro me interessou muito porque Diane Silver é uma profiler do FBI com um passado bem traumático: sua filha foi vítima de um serial killer que filmou todas as torturas e até a morte da menina. 

Arrasada e destruída, Diane Silver passa por um longo processo de auto-destruição até ressurgir das cinzas, como uma Fênix, mas obviamente sendo uma pessoa muito diferente do que um dia foi.

Através de flashbacks, conhecemos o passado e a transição de Diane até os dias atuais, incluindo os amigos, e inimigos, que ela fez ao longo desses anos. Amarga, sarcástica, inteligente, mas extremamente profissional, Diane é o tipo de personagem que amamos odiar, principalmente quando se trata de sua postura diante dos outros policiais com os quais ela é obrigada a conviver.

A história desse livro gira em torno de dois serial killers: um que mata prostitutas nos EUA e outro que deixa rastros tanto nos EUA quanto no México e na França. Mas é através de um de seus únicos e mais antigos amigos que a doutora Silver é introduzida nesse segundo caso, trazendo toda a ação que a narrativa precisa para engrenar e ficar cheia de elementos eletrizantes que fazem com que o livro praticamente vire um filme de suspense!

O desenrolar do caso é incrível, mas o ponto alto do livro é mesmo a mudança pela qual a personagem principal passou ao longo dos anos e seu novo modo de ver os assassinos e psicopatas, fazendo-nos questionar se ela mesma não pode ter se perdido na loucura da dor, apesar de seus brilhantes momentos de lucidez e brilhantismo. Não há mais como justificar os psicopatas. Não existem mais justificativas para a doutora Silver: seu único objetivo é tirar esses marginais de circulação!

Mas como nem tudo é perfeito, algumas coisas me decepcionaram no livro e a principal delas foi o fato de ter descoberto o serial killer tão cedo por causa das pistas que a autora e a própria Diane Silver vão jogando ao longo da narrativa. Outro motivo foi que, para embasar a teoria da doutora Silver, a autora optou por incluir na trama jovens sem quaisquer problemas com os pais ou com a Sociedade que descambam pelo caminho do mal e se tornam (ou já nasceram assim) psicopatas assassinos. 

No mais é um livro muito interessante de uma série que promete melhorar ao longo dos livros conforme a autora explora não só a mente dos maus, mas também a dos bons, mas principalmente os anos escuros da doutora Silver. Afinal de contas, ter um lado humano é ou não necessário para uma profissão como essa? O consenso diz que sim, mas o que acontece quando a sua vida é arrasada por um dos monstros que você deveria combater?

O livro dois, "Amarga Vingança" já saiu no Brasil e pretendo ler essa continuação antes do fim do ano! Volto com novidades!

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Destaque no cenário de suspense nacional (Renata Lima)


É com muita alegria que hoje trago para vocês um dos grandes nomes da literatura nacional contemporânea no gênero suspense: Raphael Montes. Como grande amante do gênero, fiquei absolutamente encantada com o livro "Dias Perfeitos" e já coloquei "Suicidas" na minha meta de leitura do mês que vem.
Nossa Avaliação - 8.0

"Dias Perfeitos" conta a história de Téo, um universitário estudante de Medicina que depois de um revés na vida vive quase recluso com a mãe cadeirante e um cão. Apesar de sua relação um tanto próxima com Gertrudes, um dos cadáveres da aula de Anatomia, Téo não tem amigos.

Empurrado para um churrasco pela mãe e a vizinha (Téo é vegetariano, diga-se de passagem), ele conhece Clarice, jovem de família rica e ausente, que escreve um road movie chamado Dias Perfeitos sobre três amigas que viajam pelo Rio de Janeiro e conhecem um gringo.

Imediadamente, Téo traça maneiras de se aproximar de Clarice, desenvolvendo um comportamento obsessivo e psicopata. Ele passa a segui-la, descobre quem são seus amigos, onde ela mora, onde estuda, até que um dia ajuda Clarice na rua. Mediante o questionamento dela sobre o que ele estava fazendo naquele lugar e naquela hora, ciente de que não poderia ser uma coincidência, Téo se descontrola e nocauteia Clarice, sequestrando-a em seguida. É o início de um "relacionamento" cheio de altos e baixos, muito suspense, muita psicopatia, muitos momentos "ai, meu Deus!".

A construção dos personagens é absolutamente fascinante e a escalada da psicopatia de Téo, assustadora. Narrado do ponto de vista dele, a história tem todo um tom de "eu estou ajudando a Clarice a desenvolver seu potencial", "eu estou mostrando a ela como eu posso ser bom para ela", "eu vou colocar a vida dela nos eixos". E seja no chalé de Teresópolis ou na praia deserta de Ilha Grande, que também estavam no roteiro de Clarice, roteiro esse que Téo a obriga a reescrever e desenvolver melhor, a lógica crua e por vezes ilógica de Téo é de deixar qualquer um de cabelo em pé.

Há passagens incríveis no livro e frases muito poéticas que não vou escrever aqui porque é parte do livro se encantar e descobrir essa escrita cheia de referências incríveis. É importante dizer que qualquer semelhança com o livro "Misery - Louca Obsessão" do Stephen King é mera coincidência. Clarice não é famosa, Téo não é um fanático, é só um psicopata. Não existe motivação específica além do fato de que ele está obcecado por ela. Eu diria que o livro faz mais lembrar "O Colecionador" do John Fowles do que o do Mr. King, mas também nada que pareça uma cópia, porque o desenrolar da história é bem diferente.

Confesso que fiquei um pouco decepcionada com as reviravoltas muito sem noção do final (eu ficava me perguntando "que ser humano faz uma idiotice dessa"?) e com simplicidade do fim, mas nada disso tira o mérito da criação e do desenvolvimento primorosos. 

A sinopse diz que o livro é "uma história de amor, sequestro e obsessão" e inicialmente eu não entendia como esses dois substantivos ("sequestro" e "obsessão"), carregados de significados tão pejorativos, caberiam na mesma frase com um substantivo emprenhado de sentimentos tão lindos ("amor"). Agora entendo! E se você é fã de suspense, thrillers e histórias cheias de reviravoltas, recomendo que procure entender também!

P.S.: Agora no mês de maio, Raphael Montes anunciou que seus dois livros "Suicidas" e "Dias Perfeitos" serão adaptados para o cinema. Qualquer nova informação, divulgaremos no Facebook!


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Desafio Skoob Abril - Suspense e thriller psicológico, união perfeita (Aline Basilio)


E para o Desafio Literário do Skoob, no mês de abril (livro escrito por mulher) escolhi ler "Bela Maldade", de Rebecca James, um thriller psicológico misturado com suspense e mistério: combinação mais que perfeita!

Nossa avaliação - 8,5
O livro nos conta a história de Katherine Patterson, uma adolescente de 17 anos que, após uma tragédia em sua família, se muda para Sidney e se “esconde” do mundo.

Na nova cidade e escola, encontra Alice, a garota mais popular e sua mais nova amiga. Alice é super divertida e não leva nada a sério, sempre esbanjando simpatia e rodeada de pessoas. Convivendo com Alice, Katherine também se torna popular e cria-se um trio inseparável entre Alice, Katherine e Robbie, amigo de Alice e agora de Katherine também.

Vivenciamos o desenvolvimento dessa amizade e como isso transforma a vida de Katherine, aumentando seu convívio social e interpessoal. Mas então Alice começa a se comportar de uma forma diferente, sendo um pouco maldosa e fazendo qualquer coisa para conseguir o que deseja, e isso incomoda Katherine, que possui um segredo do passado que não deseja que seja revelado e tem medo que essa nova faceta da amiga o descubra. 

Será que essa amizade resistirá aos segredos?

O trauma sofrido por Katherine é bem explorado pela autora, seus sentimentos, seus conflitos internos e externos, sua reclusão... Como os segredos são revelados aos poucos, o leitor fica imaginando o que teria acontecido. As loucuras de Alice também dão um toque especial à narrativa. 

O lado psicológico dos personagens foi muito bem descrito em situações do cotidiano. Em alguns momentos é de tirar o fôlego!

Um livro muito intenso, de leitura rápida, interessante e muito bem desenvolvido. Com capítulos curtos que intercalam o presente e o passado, nos revelando informações sobre os personagens, seus segredos e suas personalidades, tecendo uma trama de deixar o leitor intrigado. Um suspense do gênero YA que prende a atenção até o final.

Fiquei feliz por ter comprado esse livro na Bienal de 2013 por um preço ótimo, pois valeu a pena!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Opções de Qualidade na Nova Aposta da Vertigo (Renata Lima)


Não adianta, eu não consigo pronunciar Vertigo em português! Culpem o U2 que fez aquela música Vertigo que não sai da minha cabeça toda vez que eu leio no nome da editora. Desculpa. O fato é que a Autêntica lançou o selo Vertigo (que, minha Nossa Senhora, virou VESTÍGIO agora, eu preferia Vertigo mesmo, ou Vertigem) para publicar uma linha de livros de suspense e policial.

Não sei bem qual foi a ordem de publicação e não faz muita diferença porque, apesar de alguns deles serem séries, eles começaram certo, publicando o primeiro livro de cada uma, ao contrário de algumas editoras por aí, como a Arqueiro e a Novo Conceito, que começam a publicar aqui no Brasil o décimo livro de uma série sem nunca ter publicado o primeiro. Vai entender...

A Carlinha já falou para vocês do livro "Os Sete Crimes de Roma", e ela não gostou muito, mas hoje eu venho falar para vocês de "Vestido de Noivo", do francês Pierre Lemaitre, muito elogiado pela Pati do Alma do Meu Sonho e pela Denise do Cem Anos de Literatura, que é um livro único, não faz parte de uma série, por isso me atraiu a começar por ele.

Nossa Avaliação - 7.0
Nas primeiras páginas, somos apresentados à Sophie e à sua depressão. Com lapsos de memória, um estado mental alterado e à beira de um colapso, o narrador em terceira pessoa passa pela vida de Sophie até aquele dado momento: a mãe já falecida, a sogra morta, o marido morto. Apesar de culta e com um diploma universitário, Sophie trabalha como babá de uma criança de seis anos e sua vida é reclusa, beirando a invisibilidade até que um dia, depois de mais um de seus apagões, Sophie acorda e descobre que pode ter cometido um crime.

Apesar de manter um bom relacionamento com o pai, Sophie decide fugir. Atormentada pela culpa e pela incerteza, ela passa a se esconder enquanto recebe notícias pelos jornais de que está sendo procurada pelo país todo, inclusive em países próximos à França.

Mudando constantemente de lugar e de visual, Sophie precisa de um precisa de dinheiro para pôr em prática um plano que a deixará mais tranquila e é aí que o livro começa, na minha opinião, lá pelos 30% quando aparece um outro narrador, em primeira pessoa, que vai começar a clarear todo mistério que envolve os apagões de Sophie.

O que me fez gostar desse livro é que eu achava que eu tinha todas as respostas e de repente chega o autor e me diz "Ah, você ACHA que sabe? Então olha aí!" e me desestrutura completamente com uma reviravolta de tirar o fôlego que recentemente aconteceu comigo com Gillian Flynn e seu livro "Garota Exemplar". Mas ao mesmo tempo em que o livro me arrebatou nesse momento, ele me perdeu em algum momento depois, talvez na segunda parte, narrada pelo outro personagem que não a Sophie, quando me vi questionando a facilidade com a qual esse personagem se encaixa em determinados momentos do livro e dos 30 aos 65% do livro eu notei que eu estava lendo com menos empolgação do que deveria. O bom é que depois o livro dá uma esquentada, engata a marcha e te leva para um final bem interessante, mas não imprevisível. Mas quem disse que o previsível também não pode ser bom?

Em termos editoriais, o livro é muito bonitinho, todas as capas da Vestígio são muito bem feitas, diga-se de passagem, e o livro físico não é aquele livro bruto e grande. Ele chega a ser até leve e delicado, talvez para contrastar com as histórias que têm dentro deles, quem sabe?

Apesar de não ter erros, notei que a tradução é um pouco "simplificada" no sentido de atender melhor aos leitores nacionais, utilizando-se de gírias e expressões idiomáticas que não condizem com a sofisticação dos personagens, ao meu ver. Minha única "bronca" é que quando eu li o e-book, em .mobi, na capa interna o título do livro estava "Vestido de Noiva" e não de "noivo", como na capa.

Para quem procura uma saída da rotina, esse livro vale a pena, mas se você está esperando ação do início ao fim, sugiro que tente "Sete Dias em River Falls" o primeiro livro da série River Falls (o segundo sai em abril e já está sendo noticiado na foto lá em cima) porque a tensão nesse livro é mais psicológica, mais interna. De qualquer forma, mais um livro interessante lido!

PS: Uma pequena correção: o livro "ESTAVA ESCRITO" de Gunnar Staalesen é o 11o livro de uma série chamada Varg Veum!

quarta-feira, 26 de março de 2014

Todo cuidado é pouco (Renata Lima)


Mais um livro livro para o Desafio do Skoob de março que merece uma resenha só dele: “A Lista do Nunca” de Koethi Zan, publicado aqui no Brasil pela editora Paralela. Eu achava que a Paralela só publicava livros eróticos, mas depois descobri que publica também policial, suspense, romance e ficção, vivendo e aprendendo!

Nossa Avaliação - 7.5
Narrado em primeira pessoa, o livro conta a história de duas amigas, Sarah e Jennifer, que depois de sofrerem um grave acidente de carro aos doze anos, onde a mãe de Jennifer morre, criam A Lista do Nunca enquanto convalescem no hospital, no intuito de evitar os perigos do mundo moderno.

Quando o pai de Jennifer é preso por embriaguez, Jennifer passa a morar com os pais de Sarah e os laços de amizade entra as duas se estreitam ainda mais e depois de anos, quando as duas, já jovens, se mudam para o campus da faculdade, acabam deixando A Lista do Nunca de lado ao entrarem em um táxi depois de uma festa (um dos itens da Lista do Nunca era nunca entrar em um carro com um estranho).

Sequestradas por um maníaco, as duas são jogadas em um porão juntamente com outras jovens e passam anos e anos de abusos e maus tratos. Porém, enquanto Sarah e as outras jovens, Christine e Tracy, têm uma certa "liberdade", Jennifer é trancada em uma caixa de madeira e depois desaparece misteriosamente.

Depois de muito tempo, Sarah conquista a confiança do maníaco e consegue que ele a leve para os andares superiores e confesse a morte de sua melhor amiga. Eventualmente, Sarah consegue fugir e acionar a polícia, mas agora, dez anos depois, seu torturador pode ser solto por bom comportamento caso ela e as outras vítimas não testemunhem novamente contra ele, já que o maníaco só foi preso por sequestro, já que os restos mortais de Jennifer nunca foram encontrados.

Formada e trabalhando, mas ainda com muitos traumas daquele tempo, Sarah vive em reclusão. Ela trabalha de casa e seu único contato com as pessoas se dá pelo computador, pelo telefone ou pela porta de entrada. Mais do que decidida a testemunhar contra o sequestrador, Sarah decide que precisa encontrar provas que o liguem ao assassinato de Jennifer e para isso ela precisa mais uma vez deixar de lado A Lista do Nunca e sair de casa atrás de suas aliadas.

Acontece que nem todas estão dispostas a reviver o passado e muitas ainda culpam Sarah por tê-las abandonado no porão para viver nos andares de cima com o bandido, mesmo que isso tenha significado a libertação de todas no final das contas.

O livro é bom, mas depois de ter lido "Identidade Roubada" da Chevy Stevens e "No Escuro" da Elizabeth Haynes, por exemplo, notei uma certa superficialidade da autora ao relatar os abusos e as sequelas dos mesmos. Ouso dizer que as outras personagens são bem melhores construídas do que a narradora do livro, principalmente em relação aos traumas sofridos e à vida que desenvolveram depois do cativeiro.

Outra coisa que não me desceu bem foi o fato da personagem principal ter conseguido fugir, ter ido à faculdade e só depois de tudo isso ter desenvolvido uma fobia que a impedia de sair de casa. E do mesmo jeito que essa fobia apareceu, ela simplesmente desaparece e, de repente, sem nenhum ataque de pânico, lá está nossa heroína andando na rua, dirigindo, levando uma vida bem funcional. 

O que infelizmente tirou pontos do livro, na minha opinião foi o final extremamente previsível e incrivelmente curto. Serve para o propósito do "minha nossa, então é isso", mas não existe uma explicação racional que leva o leitor a acreditar que isso poderia ter acontecido, acho que podia ter um epílogo um pouco mais elaborado, talvez uma reportagem de jornal fechando a tampa, sabe? As coisas ficariam mais amarradinhas.

Apesar de tudo, recomendo o livro para qualquer um porque ao contrário dos livros acima citados "Identidade Roubada" e "No Escuro", "A Lista do Nunca" não requer estômago forte. É uma leitura tranquila, apesar de não ser leve, como não o é qualquer livro que tenha esse tema!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Abnegação e Medo em "Ratos" (Kelly Santos)


Primeiramente preciso falar da arte da capa que é muito bacana. A toca de rato na capa deu um toque final e deixou o livro melhor ainda. Mas não vamos nos precipitar, vamos ao livro!

Nossa Avaliação - 9.0
"Ratos" de Gordon Reece e publicado pela editora Intrínseca, conta uma história interessantíssima sobre o mais puro, simples e forte sentimento humano: o medo. O medo de se impor, o medo de reagir diante de uma injustiça, o medo de dizer algo improprio. Shelley e sua mãe têm algo em comum, além do parentesco, elas têm personalidades muito parecidas, na verdade, iguais. As duas são como ratos que ao menor indicio de ameaça correm e se escondem sem jamais enfrentar ou bater de frente com quem quer que seja, nem para se defender de ataques, às vezes até mesmo físico e é por esse motivo que a vida delas é muito difícil.

O pai de Shelley foi embora de casa com sua secretária, muitos anos mais nova que ele, deixando sua mãe praticamente sem nada, e ainda tentou ganhar a guarda de Shelley, mas com 15 anos ela já podia escolher e portanto escolheu ficar com sua mãe. Como punição pela escolha, o pai simplesmente passou a ignorar a existência dela, que apesar de não admitir, adorava estar com o pai e que secretamente alimentava a esperança de que ele voltasse para salva-lá, como um herói.

Ele é advogado e conheceu a mãe de Shelley quando ela começou a trabalhar para a mesma firma legal que ele, eles se apaixonaram e se casaram.  Porém, assim que Shelley nasceu, o pai exigiu que a mãe dela parasse de trabalhar para cuidar da menina, mesmo que ela estivesse prestes a se tornar sócia da firma, e como o rato que era, ela acatou a ordem e passou a ser uma dona de casa exemplar e uma mãe cuidadosa.

Já crescida, Shelley é muito estudiosa, boa filha sempre dedicada às artes e à boa literatura. Na escola passa por maus bocados com suas ex-amigas de infância e sofre um bullying pesado por meses a fio que acaba culminando em ataque brutal que resulta em internação e afastamento permanente da escola. Em meio a essa atmosfera de medo e desamparo, as duas resolvem se mudar para um lugar bem afastado da cidade para que possam ficar isoladas e não sejam perturbadas, ou seja, elas querem se esconder do mundo.

Quando tudo começa a melhorar e elas começam a ter uma vida feliz e agradável, mesmo como ratos entocados, algo terrível acontece e ameaça essa já muito frágil felicidade. Diante dessa complicação, elas não sabem como não reagir, como nunca souberam a vida toda na verdade, mas é a partir daí que as duas são obrigadas a tomar uma decisão dramática: deixar de ser ratos ou deixar de existir? Elas de fato existem?

O que me impressionou bastante foi a forma como a mãe de Shelley resolve lidar com os problemas. A reta final do livro é tão genial e tão perspicaz que me deixou com uma dúvida: como uma mulher tão inteligente e com uma capacidade de raciocínio tão ágil pôde ser capaz de aceitar todas as privações e as humilhações as quais foi submetida por tantos anos? E até Shelley, que me irritou bastante e que mesmo depois do bullyng ainda mantinha um pouco das suas atitudes de rato, começa a mudar e no fim posso até dizer que simpatizei com ela.

Pra resumir, o livro é ótimo; nunca tinha ouvido falar desse autor e fiquei encantada com a forma como ele conta uma história e de como ele a desenvolve através dos olhos de Shelley. Adorei o livro e super recomendo.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Medo? Que medo? (Carla Cristina Ferreira)

O que falar de “Vou lhe mostrar o medo”? Livro publicado pela Geração Editorial do aclamado autor norueguês de Nikolaj Fobenius, conta um pouco da turbulenta vida do famoso poeta e contista Edgar Allan Poe, conhecido por suas obras mais famosas como o poema “O Corvo” e contos como “Assassinatos na Rua Morgue”, já resenhados aqui.

Nossa avaliação - 6.0
Diferentemente do filme, estrelado por John Cusak e Luke Evans no ano passado, este livro, que de acordo com o autor foi plagiado por Hollywood para dar vida ao filme, entra mais na categoria de suspense psicológico do que de terror ou suspense. Se você espera encontrar no livro o mesmo corre-corre frenético do filme ou Poe tentando desvendar a identidade do assassino que recria a sua obra em carne, sangue e morte; esqueça!

Recriando a infância solitária do menino órfão, adotado por uma família que apenas desejava moldá-lo a perfeição, aos poucos vamos conhecendo um pouco das angústias que fizeram parte de sua vida, juntamente com a constante pobreza e a enfermidade de sua esposa (sua prima na verdade, Sissy).

Mas o sucesso começa a bater a sua porta e neste ponto crimes horrendos passam a figurar nos jornais, chamando a atenção daqueles que reconhecem o tom macabro de Poe nestes atos funestos; incluindo o próprio autor que, por medo de se comprometer, nega à polícia a identidade do criminoso, na verdade um velho conhecido.

O livro foca mais na complexidade do comportamento do autor, do seu rival literário Rufus Griswold e do criminoso. Até que ponto a ambição e o desejo de se tornar um grande escritor pode levar a loucura? Era Poe um mero excêntrico e alcóolatra? Até que ponto o ser humano é capaz de difamar e destruir a reputação de uma pessoa porque acredita que Deus lhe incumbiu de uma missão de fazer o bem? Até que ponto a devoção e o amor transformam a pessoa em assassino?

O autor criou uma justificativa ficcional para o comportamento e a rivalidade de Poe e de Griswold, mas alguns pontos na narrativa me incomodaram, principalmente com relação à construção do assassino que se fez muito caricata e estereotipada. O livro, que se divide em cinco partes, incluindo o prólogo que narra a infância do autor, relata a trajetória de Poe ao longo dos anos, passando Filadélfia, Nova York, Baltimore, Richamond e Fordham. Os capítulos são focados ora em Poe, ora em Griswold e em alguns momentos temos acesso às manchetes de jornais e, principalmente às cartas escritas pelo assassino a Poe, o único momento de vislumbre que temos da mente doentia do “vilão”, se é que podemos designá-lo como tal.

Não é preciso dizer que o livro é recheado de referências à obra de Poe, como os poemas “Berenice”, “A Cidade no Mar” e o conto “O Barril de Amontilhado”.

Enfim, o livro não era o que esperava e por isso fiquei um pouco decepcionada, mas a obra é primorosa quanto ao trabalho editorial, sem erros, com uma capa instigante; uma impressão cuidadosa. Este foi o primeiro livro da Geração Editorial que li, achei o trabalho impecável; estão de parabéns!

Abaixo o trailer do filme:

 


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Lembranças Perdidas (Renata Lima)


Nossa Avaliação - 8.5
Christine é uma mulher com uma doença rara contraída depois de um acidente: ela perde a memória toda vez que dorme profundamente. O problema é que ela não perde completamente a memória, ela se lembra de coisas da infâncias, às vezes da adolescência ou da juventude, mas Christine é agora uma mulher na meia-idade e ela não se reconhece no espelho, muito menos reconhece o homem ao seu lado na cama, seu marido Ben.

Ben sempre deixa fotos e recados no espelho do banheiro. Tentando fazer com que Christine não se assuste, ele praticamente reconta a vida dos dois todos os dias, incluindo o acidente que fez com que Christine perdesse a memória. Sem parentes vivos e sem poder trabalhar por causa da sua "doença", Christine passa o dia inteiro em casa procurando as lembranças perdidas do passado.

Sem o consentimento do marido, ela procura um médico que sugere que Christine escreva um diário sobre seus dias e anote qualquer coisa que possa se lembrar, mesmo que essa coisa pareça insignificante: uma pessoa, um objeto, uma paisagem. Dessa forma, no dia seguinte ela pode reler o que escreveu no dia anterior e quem sabe assim não se sinta mais tão perdida e desamparada.

Inicialmente, Christine encontra no diário uma forma de se expressar, recontando tudo que Ben lhe diz pela manhã, antes de sair para o trabalho, mas a medida que as lembranças vão retornando toda vez que relê o diário, Christine descobre que o marido talvez não seja quem diz ser e que há muito mais por trás do seu acidente. Por que Ben omitiria informações importantes dela sabendo que ela esqueceria tudo no dia seguinte?  Por que ele insiste em contar apenas as partes que lhe convém?

"Antes de Dormir" é o diário de Christine e, portanto, é narrado de um forma rápida e dinâmica em primeira pessoa. A autora O autor S.J. Watson fez um trabalho absolutamente incrível revelando e ao mesmo tempo escondendo dicas nas entrelinhas, nos dando a sensação de estar seguindo com Christine através de um caminho enevoado de sons e imagens conforme a personagem principal vai descobrindo eventos do passado.

O livro prende, a história convence, os personagens são bem desenvolvidos, a narrativa flui e se tinha algum erro da parte editorial passou batido por mim porque eu realmente estava envolvida pela história. Um dos melhores livros que eu li esse ano, sem dúvida!

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Marcada pelo passado (Renata Lima)


Nossa Avaliação - 9.0
Quatro anos atrás, Cathy escapou de um psicopata agressivo e assustador que ela mesma deixou entrar em sua vida. Quando conheceu Lee, ela era uma jovem como qualquer outra: tinha amigas, frequentava bares e festas e tinha a certeza de que em Lee tinha encontrado o homem de seus sonhos, afirmação essa compartilhada por todo o seu grupo de amizade.

Mas aos poucos Cathy foi descobrindo que todo o carisma e charme de Lee era apenas fachada e que ele era, na realidade, um psicopata que habilmente consegue isolá-la de tudo e de todos e fazer com que ela se sinta culpada por todos os problemas dele e do relacionamento dos dois. 

Desesperada para fugir dessa relação de constantes abusos físicos, psicológicos e sexuais, Cathy decidiu recorrer às  amigas apenas para descobrir que já era tarde demais: todas tinham sido manipuladas por Lee e acreditavam que ela era louca e estava obcecada por ele.

A fuga cuidadosamente planejada não dá certo, mas de um jeito ou de outro, Cathy conseguiu fugir e descobrimos que Lee agora está preso e Cathy juntou os cacos de sua vida e se mudou para longe de todos que um dia a conheceram. 

A nova Cathy é uma mulher arredia e assustada. Obsessiva-compulsiva, ela passa seus dias em uma rotina extenuante e assustadora de insegurança e pavor quando conhece o novo vizinho Stuart, que aos poucos conquista sua confiança, incentivando Cathy a procurar ajuda para curar seu TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

Apesar das lembranças tão nítidas e tão reais, Cathy aceita a ajuda de Stuart e começa a falar sobre seus transtornos com um amigo de Stuart. Até que um telefonema muda tudo e Cathy precisa decidir o que vai fazer de sua vida: fugir novamente ou deixar que o passado a atinja novamente?

É difícil resenhar esse livro sem usar palavras como "claustrofóbico", "psicótico", "perturbador", "verdadeiro" e "neurótico". A vida de Cathy e os abusos sofridos por ela são contados em detalhes e isso perturba profundamente, assim como os atos do transtorno obsessivo-compulsivo nos deixa absurdamente incomodados. Como alguém consegue viver checando as trancas da porta e das janelas mais de vinte vezes? Checando a posição dos talheres? 

Stuart parece ser o personagem que representa a sanidade de Cathy, o lado do anjinho que diz que tudo está bem, que ela não precisa passar por tudo aquilo, que não há perigo, que ele está ali para ajudá-la, mas Stuart não passou pelo que ela passou, ele não sabe o que é viver aterrorizado, fazendo caminhos alternativos para voltar do trabalho, checando o beco de trás escondida pela cortina.

No meio do livro, eu já vivia a paranoia junto com Cathy, parava para me perguntar se ela já tinha checado a porta de entrada do prédio, se os talheres estavam no lugar certo, se os barulhos do lado de fora do corredor eram normais ou se tinha alguém colado à porta dela, esperando que ela durma para invadir e violentá-la.

Assim como Chevy Stevens no livro "Identidade Roubada", Elizabeth Haynes conseguiu despertar em mim emoções variadas de raiva, repulsa, ódio, indignação. Ela conseguiu mexer com meus sentimentos ruins de uma forma boa e acho que esse é o papel dos livros: despertar emoções. Fazer com que a gente sinta alguma coisa, nem que seja indiferença! 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Será que eu perdi alguma coisa? (Renata Lima)


Quando avaliei esse livro no Skoob, descobri uma coisa aterradora, o livro tem quase 60% de notas acima de 4 (lembrando que a nota máxima no Skoob é 5) e não pude deixar de me perguntar se eu perdi alguma coisa fenomenal ao ler o e-book, se faltaram algumas páginas, se o livro físico é de alguma forma diferente.

Para esclarecer essa situação, fui à Saraiva só pra dar uma olhada no livro e com meu Kindle em mãos comparei o conteúdo quase todo. Acho que o vendedor da Saraiva achou que eu estava com algum transtorno mental, mas aí eu expliquei pra ele o que tinha acontecido e ele disse que também leu e odiou o livro. Ufa, fiquei feliz de não ter sido a única.

Nossa Avaliação - 4.0
O livro "Cuco" de Julia Crouch conta a história de Rose, uma mulher casada com um artista plástico americano e com duas filhas, sendo uma ainda bebê que mora na Inglaterra. Mesmo contra a vontade do marido, que demonstra uma certa aversão à amiga da esposa, Rose decide acolher a amiga de infância Polly e seus dois filhos depois que o marido da amiga, o grego Christos - que depois descobrimos que era um quase-namorado de Rose que ficou encantado por Polly assim que a conheceu - morre em um acidente. As circunstâncias da morte de Christos vão aos poucos sendo reveladas.

O problema é que Polly - que um dia foi uma grande estrela da música  e agora é uma mulher amargurada e derrotada - só sabe beber e dormir e larga os filhos sob os cuidados da super-protetora Rose, que passa a ser mais mãe dos meninos do que a zero à esquerda da Polly. 

Polly está sempre desfilando de camisolas transparentes - o que para mim é muito estranho mesmo que a pessoa seja muito amiga aceitar que uma mulher ande assim dentro da SUA casa na frente do SEU marido e seus filhos - fumando, bebendo ou desfilando e Rose encara isso como algo natural porque afinal de contas "a Polly é a Polly, sempre sexy, mesmo usando um pano de chão". Muito clichê.

Obviamente a "visita" de Polly com os filhos muda a rotina da família de Rose e a "amiga" começa a mostrar para Rose um lado não tão bonzinho de própria personalidade. É possível retomar uma amizade quando há inveja ou qualquer tipo de ressentimento? E o livro é todo escrito sob a perspectiva da Rose, a mulher exemplar, boa mãe, boa esposa, boa cozinheira, tolerante com as horas e horas que o marido passa trancado no estúdio, mas não é bem assim, fique atento!

Eu poderia escrever a quantidade enorme de clichês no livro, do quanto eu achei "Mulher Solteira Procura" misturado com "A mão que balança o berço" e tantos outros filmes que mostram esse tipo de obsessão, mas o que revoltou mesmo foi o final hipócrita e sem o menor sentido! Por isso quando vejo notas 4 e 5 no Skoob, eu me contorço. Será que é isso que as pessoas esperam de uma amizade?

Vou deixar vocês julgarem depois que lerem. Então, se alguém já leu ou ainda pretende ler, deixe aqui um cometário depois. Só tomem cuidado pra não deixar spoiler, tá?

Não posso de deixar de elogiar a Novo Conceito por manter a capa original que é bem interessante.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Sequelas pós-sequestro (Renata Lima)


Nossa Avaliação - 9.0
Annie O’Sullivan é uma jovem corretora de imóveis com problemas comuns como você e eu. Em um dia como outro qualquer, Annie acorda e está disposta a resolver três itens de sua vida: vender uma casa, fazer as pazes com a mãe e não se atrasar para o jantar com o namorado. É um domingo de manhã e na visitação ao imóvel pouca gente aparece. Annie está disposta a ir embora quando um homem simpático e sorridente estaciona a van na frente da casa parecendo realmente interessado. Como recusar um cliente tão encantador? 

E é nesse ponto que a vida de Annie vira de cabeça para baixo. Sequestrada, Annie passa um ano em poder de um Maníaco - como ela mesma o identifica - em um chalé à prova de fuga nas montanhas, onde vive um verdadeiro pesadelo que mudará para sempre a sua vida e a sua forma de encarar o mundo e as pessoas.

O livro é absolutamente estarrecedor e nele a própria Annie narra todos os detalhes das torturas físicas e mentais as quais foi submetida com uma única condição: a terapeuta - que nunca é identificada, a não ser como "doutora" - não pode fazer perguntas. E se Annie é a narradora, nós nos sentimos um pouco como a psiquiatra, ouvindo e nos compadecendo a cada revelação.

Ela revela que virou uma pessoa amarga, pessimista, cheia de obsessões, privada de sua humanidade. Considerada heroína por ter sobrevivido, Annie afirma, depois de ser abandonada no chalé, sem comida: "Sim, eu achava que era durona. Mas, depois de cinco dias sozinha, a durona amoleceu. Cinco dias desgraçados, e me vi disposta a fazer qualquer coisa que ele quisesse. E hoje sou vista como heroína. Heróis entram em prédios em chamas para salvar crianças. Heróis morrem pela causa. Eu não sou heroína... sou covarde."

Mas voltar para casa, Annie não tem que enfrentar só seus próprios medos, agora tem que lidar com familiares, policiais e a imprensa que nunca a deixa em paz com suas perguntas redundantes: “O que você sentiu lá na montanha? Você teve medo?” Não, sua esperta... Essas pessoas não são melhores do que ele (o Maníaco)... são sádicas e muito bem pagas. Annie sabe que enquanto sua vida estava congelada em um ciclo vicioso de medo e violência, a vida de todo mundo continuou e agora, quando ela fala com as pessoas mais próximas, sente raiva quando as ouve se queixando sobre o trabalho, sobre o marido, falando sobre viagens que fizeram, filmes que viram, programas na TV. "Odeio o outro por não estar sofrendo como eu, por conseguir se sentir feliz. E odeio a mim, por ter esse sentimento."

E como geralmente acontece em sequestros longos, Annie revela sintomas da Síndrome de Estocolmo,  onde o sequestrado começa a sentir simpatia pelo sequestrador: "Como posso dizer às pessoas que, quando o Maníaco me falava de lugares ao redor do mundo, como o rochedo de Gibraltar, com todos aqueles macacos, eu o achava interessante e articulado? E que às vezes, quando ele massageava meus pés... que incharam tanto... eu gostava. Ou que na hora da leitura ele se entusiasmava e ficava engraçado, ou que quando cozinhava... sempre que fritava ovo ele dava  uns passinhos de dança e falava com sotaques variados... eu via o cara sorridente que veio ao meu encontro no plantão de vendas. Como eu poderia dizer a alguém que ele me fazia rir?

Em um relato comovente, Annie começa a buscar motivos, por que ela? Quem era aquele homem? E com a ajuda do policial Gary, Annie começa a desvendar a trama por trás de seu sequestro. Desnudando sua alma na nossa frente, Annie mostra seus altos e baixos, sua tentativa de vencer as dificuldades do dia-a-dia: como ser tocada novamente por um homem, a estranheza de rir em voz alta, como ser feliz, a depressão e a vontade de esconder o próprio corpo para não chamar atenção.

E com um final surpreendente, Annie tenta voltar a viver.

"Na realidade, foi isso que aquele babaca fez. Ele me roubou o Natal. Junto com um monte de outras coisas, claro. Você sabe... coisas como amor próprio, autoestima, alegria, segurança, a capacidade de dormir numa cama... mas, tudo bem... quem vai ficar se queixando?"

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Um suspense instigante (Renata Lima)


Nossa Avaliação - 9.0
Dez pessoas são convocadas, cada uma por carta de algum conhecido, a uma mansão em uma ilha deserta, algumas para trabalhar e outras para desfrutarem de férias e descanso. O problema é que elas são levadas à ilha juntamente com outras pessoas que nunca viram na vida e aparentemente não há qualquer conexão entre elas.

Uma vez na mansão, elas descobrem que todos foram convocados pela mesma pessoa, o Sr. U.N. Owen, um suposto milionário dono da ilha. O motivo é revelado através de um disco de vinil que o mordomo (que também é um dos dez "escolhidos", juntamente com sua esposa, que é a cozinheira e faxineira) coloca para tocar: uma voz sinistra revela o nome de cada presente, assim como o crime cometido por cada um, embora alguns neguem veementemente. 

Assim o clima de instabilidade e suspeita é lançado, com o agravante do pequeno poema infantil que fica sobre a lareira e em um quadro no quarto de cada um deles, contando a história dos Dez Negrinhos:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no Zôo.
E depois? O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não sobrou nenhum.

E da mesma forma em que morrem os negrinhos do poema, vão morrendo um a um os culpados reunidos na casa. O único detalhe diferente é que as mortes não são acidentais, são assassinatos. E com cada assassinato, um dos negrinhos decorativos sobre a lareira desaparece ou aparece em pedacinhos.

Acometidos de intenso estresse psicológico, os sobreviventes precisam descobrir quem é o assassino, quem será o próximo a ser assassinado e de que forma. E assim o leitor vai, também, aos poucos, criando suas teorias - que acabam frustradas cada vez que alguém morre.

Absolutamente intrigante!

Curiosidade: Como nos EUA, a palavra "nigger" é considerada um xingamento, a versão americana do livro chama-se "And Then There Were None" (E não sobrou nenhum). Algumas edições brasileiras também adoram esse nome e um colega meu disse que leu esse livro com o nome de "O Vingador Invisível". Há quatro adaptações para a telona: E Não Sobrou Nenhum (1965), And Then There Were None / Ten Little Indians (1974), Ten Little Indians (1987) e O Caso Dos Dez Negrinhos (1989). Ainda não assisti nenhuma.