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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Uma história com dois tipos de leitura diferentes! (Renata Lima)


Antes de mais nada, eu queria deixar bem claro que li esse livro como uma obra de ficção (uma distopia para ser mais exata) e não como uma propaganda cristã para angariar fanáticos ou seguidores, como tenho lido em algumas resenhas por aí. Sim, a história tem um embasamento cristão tendo por base principalmente o livro bíblico do Apocalipse, mas isso não quer dizer que não possa ser lida como qualquer outra história fictícia baseada em notícias, livros, músicas etc.

O livro "Deixados para Trás" de Tim LaHayeme e Jerry B. Jenkins, dois pastores americanos, me foi indicado pelo grupo do Facebook "Primeiro o livro, depois o filme" logo que foi anunciada a adaptação do livro para o filme "O Apocalipse" que estreou no Brasil em 23 de Outubro de 2014.

Tudo que eu sabia sobre o livro era uma pequena comparação feita entre ele e a série de TV The Leftovers (também baseada em um livro - cuja resenha está sendo preparada chamado "Os Deixados para Trás" de Tom Perrotta). Apesar dos títulos muito parecidos e da premissa ser o sumiço instantâneo de uma parte da população mundial, as abordagens são completamente diferentes e o clima de tensão do livro de Tom Perrotta não denota nada muito religioso, ao contrário do livro a ser resenhado hoje.

Nossa Avaliação - 8.5
"Deixados para Trás" é um livro narrado por dois personagens principais: o piloto de aviões Rayford e o repórter investigativo Buck. Enquanto Rayford é casado com uma cristã fervorosa e tem uma filha e um filho; Buck é solteiro e vive afastado da família, sendo um repórter mundialmente famoso e premiado antes dos quarenta anos de idade.

Buck está feliz com seu trabalho e com sua vida errante, Rayford está feliz com seu trabalho, mas sua vida pessoal não é mais o que foi um dia e é por isso que ele começa a se interessar por uma das aeromoças com quem trabalha, a bela Hattie Durham.

A vida de Buck, Rayford e Hattie muda no voo NY-Londres em que Rayford é o piloto. Ele deixa o avião no piloto automático e vai cortejar Hattie no exato momento em que algo muito estranho acontece: vários passageiros simplesmente desaparecem do avião, deixando para trás apenas roupas e objetos pessoais - inclusive marca-passos, próteses dentárias, lentes de contato etc. A veia jornalística de Buck começa a funcionar, mas todos os demais passageiros e tripulantes sobreviventes ficam atônitos e em pânico!

Ambos, Buck e Rayford, e todos os passageiros do voo ficam ainda mais surpresos e desnorteados depois que o avião pousa e os "sobreviventes" descobrem que o que aconteceu dentro do avião não foi restrito ao ambiente confinado, mas também aconteceu no mundo inteiro: milhares de pessoas desapareceram, inclusive TODAS as crianças, mesmo as que ainda estavam no ventre.

O caos se estabelece, é claro, porque acontecem acidentes, já que muitos dos desaparecidos estavam dirigindo, cozinhando e fazendo outras atividades do dia a dia e nós sabemos que algumas pessoas se aproveitam das tragédias para colocar para fora o monstro que já existe dentro de si. Há saques, crimes, assassinatos... Confusas, as pessoas precisam de respostas e as teorias começam a brotar aos montes: ataque terrorista?, acidente nuclear?, desastre natural?, reação espontânea? ou o arrebatamento bíblico enunciado no livro do Apocalipse que seria o primeiro passo para a segunda vinda de Cristo ao mundo?

Rayford passa a acreditar firmemente na versão do arrebatamento quando descobre que sua esposa temente à Deus e seu filho mais novo desapareceram e passa a integrar o grupo da igreja arrependido de seus atos, buscando a redenção para si e para sua filha, a descrente Chloe. Através do novo pastor Bruce, ele toma conhecimento das passagens bíblicas que se referem à nova volta de Cristo e passa a ajudar o novo pastor na conversão dos não-crentes, sendo sua filha um deles.

Mas se Rayford fica mais focado nessa questão espiritual da coisa, por outro lado temos Buck, sempre muito curioso e analítico, investigando os desdobramentos políticos da situação, principalmente a ascensão de um novo e carismático líder político chamado Carpathia, que traz discursos de paz e unificação, transbordando simpatia e carisma na ONU. Buck faz questão de investigar essa ascensão, quem são os apoiadores de Carpathia, quem são seus opositores, o que está por trás dessa subida meteórica ao poder.

É impossível não se apegar aos personagens e assumir lados. Somos Buck em sua sede de conhecimento (e já dizem por aí que conhecimento é poder); somos Rayford em sua necessidade de redenção, de reunir-se à esposa e filho, de fazer brotar no espírito da filha a chama da crença, da fé; somos Chloe em sua descrença em um Deus que traz caos, medo, desconfiança, um Deus que pune antes de amar e perdoar; somos Hattie em sua solidão, em sua busca por compreensão, por um pouco de atenção. 

Algumas pessoas consideram as partes narradas por Buck um pouco chatas, mas confesso que foram as partes que eu mais gostei! Claro, é uma parte mais política, falando da ascensão de um homem que será importante mundialmente, que tentará a reestruturação da ONU, o desarmamento mundial, uma trégua para Israel, um homem que pode ser a salvação do mundo, mas que também pode ser sua perdição se o que você, leitor, passa a achar finalmente se concretizar!

Como eu disse anteriormente, como distopia ficcional, o livro é ótimo, como propaganda cristã também, mas eu não o encarei de uma forma muito religiosa para ser bem sincera. Do jeito que a coisa vai, acredito que o Homem consegue acabar com o mundo antes que Deus resolva intervir e arrebatar os Justos...

É importante lembrar que esse é apenar o primeiro de uma série de dezesseis (sim, eu disse 16) livros já lançados. São eles: 1)"Deixados Para Trás", 2)"Comando Tribulação", 3)"Nicolae - O Anticristo chega ao poder", 4)"A Colheita - A escolha está feita", 5)"Apoliom - O destruidor está solto", 6)"Assassinos - Missão Jerusalém - Alvo: o Anticristo", 7)"O Possuído - A besta toma posse", 8)"A Marca - A besta controla o Mundo", 9)"Profanação - o Anticristo apodera-se do Trono", 10)"O Remanescente - No limiar do Armagedom" 11)"Armagedom - A batalha cósmica das Eras", 12) "Glorioso Aparecimento: O fim das Eras" e os prólogos ou também chamados prequel 13)"O Nascimento - o Anticristo está aqui", 14)"O Regime: O avanço do Mal", 15)"O Rapto - Em um piscar de olhos" e o epílogo também chamado de sequel 16)"A Vitória final - O Reino chegou".

Nos EUA, na década de 2000, foram produzidos três filmes da série (e você pode assistir aos filmes clicando nos nomes): Deixados para Trás I em 2001, Deixados para Trás II: Comando Tribulação em 2003 e Deixados para Trás III: Mundo em Guerra em 2005. Só assisti ao primeiro filme e, se comparado com o filme lançado esse ano, é bem mais fiel e interessante, apesar das interpretações  meio bonachonas e de só estar disponível em versão dublada.

Nesse ano de 2014 foi lançado o filme "O Apocalipse", com Nicolas Cage e Chad Michael Murray, que foi, para mim, uma das maiores decepções do ano. 

O filme na verdade somente narra os primeiros 10% do livro, talvez nem chegue a tanto, e, além de não ser NADA fiel ao livro, tem os efeitos mais toscos que já vi na vida, além de interpretações muito equivocadas. 

Mais um filme trash do Nicolas Cage, que só tem feito filmes ruins nos últimos anos! Não recomendo, mas quem quiser assistir, pode procurar no Google a versão dublada já disponível para download ou para assistir online. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Buscando esperança em um mundo devastado (Renata Lima)



Para começar a resenha, que tal falar que esse livro deu a Cormac McCarthy o prêmio Pulitzer de 2006? 

Nossa Avaliação - 9.5
O mundo como conhecemos acabou. Não há comida, não há luz - nem o sol penetra mais nas cinzas do dia.   Um desastre devastou tudo e agora o que resta é caminhar rumo à praia, rumo a um futuro melhor, um lugar para se estabelecer. Pai e filho empreendem uma viagem cheia de perigos, cruzando os EUA, sempre na estrada, sempre atentos, sempre com medo.

A Humanidade retornou à idade da Pedra e, sem animais para suprir a necessidade de comida, os homens voltaram à Era das Cavernas, caçando em bando, se alimentando dos fracos, dos menos favorecidos, dos solitários. Como os zumbis dos filmes de terror, comer carne humana é imprescindível para a sobrevivência.

Mas o pai e o filho não. A inocência do filho depende do pai não sucumbir a tal atrocidade e não deixar que o filho pereça sob ela, então eles têm um revólver com apenas duas balas, uma para cada, caso seja necessário.

Na estrada, além de canibais, ladrões e desgarrados como eles, os dois têm outros adversários terríveis: a morte, a doença, a fome, o frio e o cansaço. E o livro engloba todos esses aspectos. 

Durante toda leitura, há uma sensação de desconforto, de opressão e confesso que algumas vezes eu tive que deixar o livro de lado por conta da agonia de um "e se isso realmente acontecesse?". É um cenário tão possível, tão bem descrito, com situações tão reais que embarcamos com os personagens no cenário feio, sujo, fétido de um futuro de cinzas.

É difícil explicar porque achei o livro tão bom, mas acredito que o autor conseguiu reunir em uma obra tudo que a gente quer em um livro: uma história interessante, personagens cativantes, uma escrita de qualidade excepcional e um final verossímil. Sonho em ver uma continuação dessa história!

E como se o livro não fosse obscuro o bastante, o filme, com o maravilhoso Viggo Mortensen (e um elenco incrível como Robert Duval, Charlize Theron e Guy Pearce) estreou nos cinemas em 2009 levando para as telonas toda aquela agonia em tons de cinza.

O filme captura com maestria os cenários e essa sensação de frio na barriga antes da desgraça. Mantém diálogos muito fiéis do pai com o menino. Vale muito a pena conferir!!!
Atravessaram a cidade ao meio-dia. Estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou.
Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O melhor romance apocalítico de Stephen King (Renata Lima)


Nossa avaliação - 9,0
Uma supergripe (chamada de Capitão Viajante) vaza de um laboratório militar e assola o mundo, os hospitais já não dão mais conta de tantos doentes, as cidades são saqueadas, há corpos por todos os lados. A humanidade como conhecíamos já era. Mas os poucos imunes se unem em dois grupos: os guiados para o Colorado pelos sonhos com a Mãe Abagail, uma velhinha angelical, e os seguidores do monstruoso e obscuro Randall Flagg, que vão para Las Vegas, terra do jogo, do sexo e do pecado.

O livro de 944 páginas é dividido em três partes. Não se espantem com o número de páginas, levei menos de um mês para ler o livro todo e se desanimei um pouco foi com o começo que é realmente a parte mais parada do livro. Vou falar de cada uma delas tentando ao máximo evitar spoilers que possam prejudicar a leitura ou acabar com as surpresas que vocês terão pelo caminho!

Na parte 1, Capitão Viajante, todos os personagens são apresentados de forma gradativa e o terror vai crescendo da mesma forma. É nessa parte que o mundo como o conhecemos "acaba" e o vírus Capitão Viajante mata a todos quando uma porta automática não se fecha em um laboratório militar e o soldado da guarita não obedece ao protocolo e foge com sua família, disseminando assim o vírus e a morte por onde passa. Os sobreviventes são isolados e estudados.

É também nessa parte que os sobreviventes começam a sonhar, a maioria deles compartilham os mesmos sonhos, com a mesma velha Abagail. Outros sonhos com o Homem Escuro. Unidos, os sobreviventes partem para o local dos sonhos com o objetivo de encontrar a senhora de 108 anos e tentar entender melhor os sonhos e seus papéis nesse Novo Mundo. Essa é a parte mais cansativa da história. Só essa parte tem 333 páginas!

Na Parte 2, Na Fronteira, os sobreviventes finalmente se encontram em seus respectivos grupos e começam a se organizar de forma a adaptarem-se às suas novas realidades, de um lado e do outro das montanhas. Essa parte tem 420 páginas e dá o tom para o resto do livro. A ação vai crescendo, crescendo e termina com os escolhidos partindo para enfrentar Randall Flagg e seus seguidores.

Da metade para o final, eu não queria mais soltar o livro. O mais interessante é que a ausência de um protagonista absoluto. Vários personagens dividem essa posição, sendo os principais os membros do comitê de Boulder: Stuart Redman, Frances Goldschmidt, Glenn Bateman e Larry Underwood, além dos foférrimos Nick Andros e Tom Cullen, um adulto com cérebro de criança.

A parte 3, A Resistência, é a melhor parte do livro! Os escolhidos devem passar por várias provações e alguns correm o risco de ficar pelo caminho. Eles têm que partir sem nada, porque é assim que Deus quer. Não vou falar mais para que vocês queiram saber como termina essa história! E como eu disse nos primeiros parágrafos, essa história tem início, meio e fim, nada fica em aberto!

O que Stephen King faz com maestria, e eu já comentei isso aqui no blog, é pegar personagens comuns, do dia a dia, com qualidades e muitos defeitos e transformá-los em heróis e vilões colocando-os em situações extremas. 

Alguns anos depois de ler o livro, em 2000,  descobri que a minissérie (em 4 episódios, de 1994) já tinha saído em DVD e corri feito louca para comprá-la. Recentemente descobri que tem HQ da série.

A minissérie é bem fiel ao livro, com poucas discrepâncias que não afetam o todo da história. Com um elenco muito bom, que conta com Rob Lowe (como Nick Andros), Gary Sinise (como Stu Redmann), Molly Ringwald (como Fran Goldsmith) e Ruby Dee (como Mãe Abagail) entre outros, contando também com a participação especial do próprio Stephen King, o que não é novidade para ninguém. Ele adora aparecer nas adaptações de seus livros (as que ele aprova, claro!).

E vamos lembrar que em 1994 não havia muito recurso em termos de efeitos especiais, então vamos dar uns descontos para os "defeitos especiais" da minissérie, tá bom?

O canal Syfy exibiu a série neste último sábado, mas como ele sempre reprisa as séries de Stephen King, prometo voltar aqui dando o novo horário de exibição. Ou pra quem quiser, emprestado, é só pedir!